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«“Hannah e Martin”, que marca a estreia de Kate Fodor na escrita teatral, nasceu de forma fortuita. Num almoço de amigos em Chelsea, Kate foi seduzida pela argumentação da sua amiga, a actriz Melissa Friedman, que tentava convencer um dramaturgo amigo a escrever a história da relação amorosa entre Hannah Arendt e Martin Heidegger. E foi ela - na altura uma jornalista de economia na Agência Reuters - que tomou como seu o desafio. A peça estreou em Março de 2004, no Manhatan Ensemble Theatre, o papel de Hanna Arendt foi confiado a Melissa Friedman.
A peça relata o relacionamento amoroso entre Martin Heidegger e Hannah Arendt, que começou em 1925, na Universidade de Marburg, onde Heidegger ensinava. É uma relação acidentada, mas não apenas por ele ser casado, com filhos e ela sua aluna. Entre os dois iria também interpor-se uma das mais violentas manifestações de horror que a humanidade conheceu, o extermínio dos judeus na II Guerra Mundial. Encontravam-se em campos opostos: Martin chegou a ser reitor da Universidade de Freiburg e aderira ao Partido Nazi e Hannah, judia, é presa, fugindo primeiro para Paris, depois para os EUA, [tendo inclusivé passado por Portugal]. Só voltaram a encontrar-se já depois da guerra, em 1950, quando Hannah Arendt regressou à Alemanha e visita o antigo professor e amante. Depois deste encontro ela há-de bater-se pela reintegração de Heidegger na Universidade, de onde tinha sido banido por causa da sua ligação ao Partido Nazi e manter uma correspondência com ele até ao final da sua vida, em 1975.»
«Para além de ser o texto de estreia de Kate Fodor no teatro, poderá também ser a primeira incursão da literatura dramática num caso que tem suscitado um crescente interesse, desde que, em 1994, Elzbieta Ettinger publicou um livro sobre as relações entre os dois filósofos (que foi lançado agora entre nós pela Relógio d’ Água) que se baseava em grande parte na análise da correspondência trocada entre os dois.» (Joaquim Paulo Nogueira)
Hannah e Martin, em cena no Teatro Aberto em Lisboa até 28 de Fevereiro, é uma peça onde o universo mais íntimo das personagens se mistura com a política, a história e a ética, colocando questões pertinentes ao espectador de hoje. Uma sugestão (cultural e pedagógica) a não perder.
Reportagem da RTP sobre a peça. |